

Deixa contar…
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
Desliza o barco, sem que se conheça
Que o espaço ou tempo existe noutra vida.
Ondas tombando ininterruptamente
E há um mar imaginário aberto em cada página
E eu quero o teu nome escrito nas marés
De vaga em vaga,
Mar…
Sob o Sol com passo incerto…
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda do deserto!
Mundo silencioso
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço,
E na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios.
Valeu a pena? Tudo vale a pena,
Minha gárgula da vida,
Meu eterno mar.
Longamente esperei que teu vulto
Rompesse o nevoeiro.
Se a minha terra é pequena
Eu quero morrer no mar
Chamando por Camões numa saudade!
Claro, jovem, alado, puríssimo, doirado,
Barcos a sair, barcos a entrar
Provo-me e saibo-me a sal
Não se nasce impunemente
Nas praias de Portugal.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos amar.
Por isso, nas horas mais tranquilas, entre falésias
Dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés
Trazem às praias, como se fosse ao coração.
Falésias, rebentação das ondas
Novelos de espuma à roda,
Clamor dos ventos.
Navios, petroleiros, nuvens, veleiros.
Ó mar salgado! Singra o navio:
Tantos naufrágios, perdições, destroços.
Mas quem passou o Bojador
Tem que passar além da dor.
Olha os meus olhos, morena,
Tudo vale a pena.
E a alma não é pequena!
Glória, Paula, Fernanda, Isabel.
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