
São muitas as vezes que te escrevo cartas de amor à hora de adormecer, aquela em que tu dizias, Deus te abençoe e a noite abria em sonho. Lembras-te?
Hoje escrevo-te cercada de luz numa sala cheia de gente que, como eu, está a escrever uma carta de amor. Perguntarás porquê e eu dir-te-ei que estou numa acção de formação. Não te preocupes. Estou a gostar. É poesia, ilha de ouro onde me fecho e me abro para o perfume do dia ou para a escuridão da agonia É poesia, mãe, e a formadora, imagina, é a Cinda. É isso, mãe. Pedi a aposentação, mas resolvi fechar com chave de ouro com a amiga que tu escolheste para me ajudar a suportar os golpes, os espinhos, até os da tua saudade, como uma espécie de carícia à alma, como dizia Álvaro de Campos.
Apesar de um certo ruído de fundo, ouço-te a voz. Vens de longe, sentas-te ao meu lado e estremecem-me as lágrimas no vulcão da tua presença imaterial. Limpas-me o pranto e quase digo são de fonte os teus olhos também. Dois prantos numa mesma comunhão, a de nos amarmos sem tempo e a de termos grilhões nas mãos a impedir o abraço palpável. O que vês agora na tua menina, mãe? Olho-me ao espelho e me digo eu mesma envelheci, mas ainda adormeço no linho do teu lençol, rente ao teu corpo quente, em afagos de beijos, eu menina de bibe que as páginas do tempo se encarregaram de envelhecer. Lembras-te do dia do baptismo da tua neta? Nesse dia branco entendi maternalmente a extensão da palavra maternal, contigo a meu lado, partilhando as minhas emoções. Deixo-te de recordação a doçura desse momento, à hora em que "os violinos tocam de madrugada".
Quando a borboleta negra me vier buscar, gostaria de abrir os olhos na outra margem onde habitas e sermos só olhos e mãos num mesmo deslumbramento . Só mãos e olhos, mãe. E era tanto.
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